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Entre Linhas
Entre Linhas

O dia em que ela percebeu que também podia escolher

Ela não sabia dizer exatamente quando tinha começado. Talvez ainda menina, quando percebeu que algumas versões dela eram mais fáceis de aceitar do que outras. Ou talvez tenha acontecido aos poucos. Um “não faça isso”. Um “o que vão pensar?”. Um “é melhor assim”. Um “deixa pra lá”. Nada grande o suficiente para parecer uma prisão. Mas pequeno o suficiente para virar hábito. E ela aprendeu. Aprendeu a perceber o que esperavam dela antes mesmo que dissessem. A sorrir quando queria dizer não. A concordar para não decepcionar. A permanecer para não machucar. A silenciar para não perder. Até que um dia alguém perguntou: — Mas o que você quer? Ela abriu a boca para responder. E não respondeu. Porque percebeu que sabia dizer o que todo mundo esperava dela… mas não sabia dizer o que ela queria. Naquela noite, a pergunta voltou. O que eu quero? Parecia simples. Mas para responder, ela teria que separar o que realmente escolheu daquilo que apenas aceitou. O que desejou daquilo que aprendeu a desejar. E talvez a descoberta mais difícil tenha sido esta: ela não tinha deixado de existir. Só tinha ficado muito tempo sem se escutar. Nada mudou de uma hora para outra. Mas, antes de dizer “sim”, ela começou a se perguntar se queria. Antes de se explicar, se realmente precisava. E antes de abrir mão de alguma coisa para evitar o desconforto de alguém, passou a perguntar: “E eu? Onde fico nessa decisão?” Nem sempre gostou das respostas. Algumas trouxeram culpa. Outras, medo. Porque descobrir a própria voz é bonito. Mas depois que você começa a ouvi-la, fica muito mais difícil fingir que não escutou. Ela não abandonou tudo. Não acordou corajosa numa segunda-feira qualquer. Não virou outra pessoa. Foi justamente o contrário. Começou, devagar, a voltar para aquela que sempre esteve ali. Até que um dia alguém perguntou novamente: — Mas o que você quer? Dessa vez ela ainda teve medo. Ainda pensou no que os outros diriam. Mas respirou. E respondeu. Talvez tenha sido uma resposta pequena para quem ouviu. Para ela, não foi. Porque naquele instante percebeu que estava começando a construir uma vida na qual também cabia. E talvez seja isso que chamamos de recomeço. Não necessariamente abandonar tudo. Não necessariamente saber exatamente para onde ir. Às vezes, recomeçar é apenas se fazer uma pergunta: “E se, desta vez, eu também me escolher?” Porque talvez recomeçar não seja mudar tudo de uma vez. Talvez seja apenas o primeiro dia em que você para de se abandonar para continuar cabendo.
— Entre Linhas
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